Fígado: Possíveis Problemas de Saúde e Como Evitá-los
Fígado: Possíveis Problemas de Saúde e Como Evitá-los. O fígado não avisa quando está em apuros. Diferente do coração, que dói, ou do pulmão, que faz você sentir falta de ar, o fígado opera em silêncio mesmo quando está sendo danificado há anos. É esse silêncio que faz com que doenças hepáticas sejam diagnosticadas tarde, frequentemente só quando já evoluíram para estágios difíceis de reverter.
Entender o que pode dar errado — e o que protege esse órgão — é um dos investimentos mais racionais que alguém pode fazer pela própria saúde a longo prazo.
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O Que o Fígado Faz (e Por Que Importa Tanto)
O fígado é o maior órgão interno do corpo, e a lista do que ele faz é longa: filtra o sangue, produz bile para digestão de gorduras, sintetiza proteínas essenciais para a coagulação do sangue, armazena glicogênio como reserva de energia, metaboliza medicamentos, álcool e toxinas, e regula os níveis de colesterol e triglicerídeos na circulação. Quando ele para de funcionar bem, essas funções entram em colapso de forma encadeada — e os efeitos aparecem no sangue, na coagulação, no cérebro, nos rins.
A boa notícia é que o fígado tem capacidade de regeneração. A má é que esse poder tem um limite. Uma vez que a inflamação crônica forma cicatrizes no tecido — o processo chamado fibrose — essas marcas não somem. Se a fibrose avança o suficiente, vira cirrose, e aí o cenário muda completamente.
Fígado Gorduroso: A Doença Que Está em 25% da População
A doença hepática gordurosa é hoje a condição hepática mais comum no mundo. Estima-se que aproximadamente 25% da população mundial tenha algum grau de esteatose hepática — o acúmulo de gordura dentro das células do fígado. No Brasil, os números seguem essa tendência, impulsionados pelo crescimento da obesidade, do diabetes tipo 2 e da síndrome metabólica.
O nome técnico atual é MASLD — doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica. A nomenclatura mudou recentemente para refletir melhor o que está por trás da condição: não é apenas ausência de álcool que define o diagnóstico, mas a presença de fatores metabólicos como obesidade visceral, resistência à insulina, pressão alta e dislipidemia.
O problema começa quando o excesso de gordura não fica estático. Em parte dos casos, o acúmulo provoca inflamação dentro do fígado — essa versão mais agressiva da doença se chama MASH (antes conhecida como NASH). E aí o risco sobe: entre 10% e 30% dos pacientes com NASH desenvolverão cirrose, como consequência de anos de evolução da doença sem ser detectada.
O ponto mais difícil é que essa progressão costuma ser silenciosa. A maioria das pessoas não sente nada. Eventualmente pode aparecer cansaço, desconforto leve na região direita do abdômen, e sensação de peso — mas esses sintomas são inespecíficos o suficiente para serem atribuídos a qualquer coisa. O diagnóstico, na maior parte dos casos, vem de um exame de rotina que mostra alterações nas enzimas hepáticas (TGO e TGP) ou de uma ultrassonografia que revela o fígado hiperecóico.
Cirrose: Quando o Dano Vira Permanente
Cirrose é o estágio em que o tecido hepático normal foi substituído por fibrose em extensão suficiente para comprometer a arquitetura do órgão. O fígado perde a capacidade de executar suas funções metabólicas e filtradoras, e começa uma cascata de complicações: acúmulo de líquido no abdômen (ascite), dilatação de vasos do esôfago com risco de sangramento grave (varizes esofágicas), e encefalopatia hepática, que é a confusão mental causada pelo acúmulo de toxinas que o fígado doente não consegue mais eliminar.
As causas mais comuns de cirrose no Brasil são o consumo crônico de álcool e as hepatites virais crônicas, especialmente B e C. Mas a MASH está se tornando uma causa cada vez mais relevante, especialmente em mulheres — já é uma das principais indicações de transplante hepático nesse grupo.
A cirrose também eleva significativamente o risco de carcinoma hepatocelular, o câncer primário do fígado. Esse tumor costuma se desenvolver em fígados já cirróticos, e o rastreamento por ultrassonografia a cada seis meses é indicado para todos os pacientes com diagnóstico estabelecido de cirrose.
Hepatites Virais: O Risco Que Ainda Está Presente
As hepatites B e C são causadas por vírus que atacam diretamente as células do fígado. A hepatite B tem vacina disponível e eficaz — faz parte do calendário nacional de vacinação desde os anos 1990, mas há uma parcela da população adulta que nunca foi imunizada e segue vulnerável. A hepatite C não tem vacina, mas tem tratamento: os antivirais de ação direta chegaram nos últimos anos com taxas de cura acima de 95% e com esquemas que duram apenas 8 a 12 semanas.
O grande problema em ambos os casos é que a infecção crônica pode durar décadas sem sintomas. Muitas pessoas chegam ao diagnóstico já com fibrose avançada ou cirrose. Por isso, os testes de hepatite B e C integram as recomendações de rastreamento preventivo — especialmente para quem nasceu antes de 1990, fez procedimentos cirúrgicos ou transfusões antes da triagem obrigatória do sangue, usou drogas injetáveis, ou tem histórico de múltiplos parceiros sexuais sem proteção.
O Papel do Álcool e dos Medicamentos
O fígado metaboliza o álcool, mas esse processo gera subprodutos tóxicos. O acetaldeído, produzido na metabolização do etanol, é diretamente lesivo às células hepáticas. O consumo crônico, mesmo em quantidades consideradas “moderadas” por padrões culturais, pode provocar esteatose alcoólica, hepatite alcoólica e, eventualmente, cirrose. Não existe uma dose de álcool considerada segura para quem já tem alguma doença hepática.
Os medicamentos são uma causa subestimada de lesão hepática. O paracetamol (acetaminofeno) é o exemplo mais conhecido: em doses elevadas ou combinado com álcool, provoca lesão hepática aguda grave, que pode evoluir para insuficiência em poucos dias. Mas outros fármacos de uso comum também têm potencial hepatotóxico — alguns antibióticos, anti-inflamatórios, e medicamentos para colesterol ou arritmia. Isso não significa que esses medicamentos não devem ser usados, mas que o monitoramento de enzimas hepáticas durante tratamentos prolongados é parte do acompanhamento correto.

Os chamados suplementos “detox” e chás para “limpar o fígado” merecem atenção diferente: não há evidência científica de que melhorem a função hepática, e alguns fitoquímicos têm hepatotoxicidade documentada.
Como Proteger o Fígado na Prática
A prevenção de doenças hepáticas está muito mais conectada ao metabolismo geral do que parece. Os três fatores que mais reduzem o risco são alimentação com restrição de ultraprocessados e açúcares simples, exercício físico regular, e controle do peso corporal — especialmente da gordura visceral. Não por acaso, esses são os mesmos fatores que previnem diabetes tipo 2, hipertensão e síndrome metabólica — condições que andam juntas com a doença hepática gordurosa.
Perdas de 3% a 5% do peso corporal já podem melhorar a esteatose no fígado; perdas superiores a 10% têm potencial de melhorar a fibrose hepática. Exercícios moderados — cerca de 150 minutos por semana — mostram resultados positivos sobre a gordura hepática mesmo sem perda de peso expressiva.
Outros pontos concretos: vacinar-se contra hepatite B se ainda não tiver imunidade, fazer exames periódicos com TGO, TGP, GGT, fosfatase alcalina e bilirrubinas para identificar alterações antes de virarem problemas maiores, e evitar o uso de medicamentos ou suplementos sem indicação médica.
Quando os Exames Levantam Suspeita
Se um hemograma de rotina mostrar TGO e TGP elevados, o próximo passo costuma ser uma ultrassonografia abdominal, que consegue identificar esteatose quando ela ultrapassa cerca de 30% do tecido hepático. Para esteatoses menores ou para avaliar fibrose de forma não invasiva, existem ferramentas mais precisas — a elastografia hepática e testes sanguíneos combinados como o FibroMax, que avalia simultaneamente o grau de gordura, inflamação e fibrose sem necessidade de biópsia.
A biópsia hepática continua sendo o padrão-ouro para casos em que há dúvida diagnóstica ou necessidade de estadiamento preciso da fibrose. Mas a tendência crescente é usar métodos não invasivos para monitoramento de rotina e reservar a biópsia para situações específicas.
O fígado tem uma resiliência impressionante — e a maioria das doenças hepáticas, diagnosticadas cedo, tem boa resposta a mudanças de hábito ou tratamento. O que prejudica o prognóstico, quase sempre, é o silêncio que permite que a progressão ocorra sem interferência por anos. Conhecer os sinais de alerta e manter acompanhamento laboratorial periódico são as ferramentas mais diretas para não chegar tarde a esse diagnóstico.
Este artigo tem caráter informativo. Qualquer sintoma ou alteração laboratorial deve ser avaliado por um médico.
Fígado: Possíveis Problemas de Saúde e Como Evitá-los – Imagem do topo: Acesso Saúde Manaus
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